
Se eu perguntasse agora como você está, a resposta provavelmente sairia no automático: "Tudo bem".
Mas, se você olhar com mais calma, talvez encontre outra coisa por trás desse "bem": esgotamento, sobrecarga, desânimo, falta de energia. Para muitos concurseiros, o cansaço deixou de ser um estado passageiro e virou identidade.
O cansaço faz parte de qualquer esforço. O problema começa quando você o naturaliza. Dependendo da intensidade, ele adoece, gera prejuízos e pode afastar você justamente do objetivo final.
Por isso, quero ajudar você a entender o que é normal, o que é sinal de alerta e o que fazer com cada um.
Estar cansado não é o mesmo que viver cansado
Estar cansado é a resposta natural do corpo a um esforço. Ele gasta energia, cansa e se recupera: uma boa noite de sono ou um fim de semana resolvem. Esse cansaço é passageiro e tem um processo reparador.
Viver cansado é outra história. É acordar cansado, estudar cansado, trabalhar cansado e ir dormir sem descansar.
Muitas vezes isso acontece porque você não se dá permissão para se recuperar, como se o seu corpo não tivesse o direito de cansar durante a preparação. Aí o cansaço vira crônico e passa a parecer o estado normal.
Os três cansaços que mais aparecem no concurseiro
- Físico
Vai além do cansaço comum: a energia não é mais a mesma e a recuperação já não acontece na mesma velocidade. Se a intensidade, a frequência e as responsabilidades aumentaram, o descanso também precisa aumentar.
Estudar para concurso gera desequilíbrio, e não vou dizer o contrário. O que você precisa é colocar um pouco de equilíbrio dentro desse desequilíbrio.
- Mental e emocional
Ele aparece onde você menos quer falhas: na concentração, na memorização, na tomada de decisão. E aqui mora uma autossabotagem silenciosa. Quando a concentração cai, a reação mais comum é se punir e exigir mais, em vez de perguntar o que o corpo está tentando informar.
- Da estagnação
É o cansaço de quem já estuda há algum tempo, já abriu mão de muita coisa, já vê evolução, mas ainda não conquistou o cargo. Surge a pergunta: "quando isso vai acabar?".
O risco é acreditar que a vida só pode ser vivida depois da aprovação e menosprezar a vida que existe agora.
O que você pode aprender com os atletas de alta performance
Olhamos para um atleta e imaginamos que ele rende no máximo todos os dias. Esquecemos que ele respeita muito o tempo de recuperação, porque é isso que sustenta a alta performance.
Com você é igual. Alguns dias você vai render 100%, outros 60%, outros 40%. Se você exige um desempenho linear, precisaria controlar tudo o que acontece no seu dia, e ninguém tem esse poder.
No feriado, sozinho em casa, você rendeu muito. No dia útil, com trabalho e transporte público, rendeu menos. Isso não é falha. Tem dias em que o mínimo é o máximo, e esse mínimo também gera movimento.
Não viva o pré-edital como se fosse pós-edital
Um erro comum é viver no eterno pós-edital: ritmo máximo o tempo todo, sem pausa, com a sensação de que alguém está sempre na sua frente.
O ser humano se adapta a quase todo desconforto, mas só sustenta isso com qualidade por um período. Depois vem a estafa, o burnout, e o seu corpo para por você.
O pós-edital é um período de exceção, de três a quatro meses, com foco extremo e mais renúncias. O pré-edital serve para construir a base: fortalecer hábitos, organizar a rotina, ganhar consistência e estocar energia.
Se você abre mão de tudo nessa fase, sem atividade física, sem convívio e sem descanso, de onde vai tirar energia quando o edital sair?
Isso também vale para o dia da prova. Se você nunca cuidou da regulação emocional durante a preparação, não adianta pedir ao corpo que fique calmo justamente no dia mais importante dos últimos meses.
A emoção vai aparecer para todos. A diferença é que quem se cuidou consegue gerenciá-la.
Descanso de verdade não é pegar o celular
Muita gente usa o intervalo do pomodoro para correr para o celular. Isso é distração, não descanso. O cansaço acumulado pede ajustes mais estratégicos:
- Descanso mental: para quando você está nebuloso e não retém o conteúdo. Desconecte-se do excesso de PDFs e videoaulas, aceite até o tédio e crie um ritual de encerramento dos estudos.
- Descanso sensorial: saia das telas, sem trocar o notebook pelo celular. Às vezes, cinco minutos deitado sem fazer nada já ajudam.
- Descanso emocional: para quando você sente que precisa segurar o mundo nas costas. Procure um espaço seguro para falar, como terapia ou alguém de confiança que acolha sua vulnerabilidade.
- Descanso social: em alguns momentos, afaste-se de interações que drenam energia e trazem cobrança.
- Descanso criativo e existencial: arte, natureza, espiritualidade. Lembre quem você é além da aprovação e do que gostava de fazer antes dos concursos.
Flexibilizar não é se mimar. É ser honesto: se hoje a concentração está muito pior, aumentar a pausa é estratégia para voltar com mais qualidade.
Pergunte ao seu cansaço o que ele está pedindo
Troque o "por que você está cansado?", por "o que esse cansaço está pedindo?". Ele pode pedir descanso, como dormir mais cedo. Pode pedir mudança na estratégia ou na rotina.
Pode pedir ajuda, como suporte psicológico ou mentoria. Pode pedir limites para as demandas que você aceita de todo mundo. Ou pode pedir propósito, uma reconexão com o motivo que fez você começar.
Responda a essas perguntas com sinceridade. Avançar e recuperar precisam caminhar juntos, porque o cansaço normalizado leva a uma desistência silenciosa, e não é isso que você quer.
Se quiser continuar cuidando da sua saúde emocional ao longo da preparação, eu conduzo as sessões de desabafo para alunos Elite todos os sábados, às 10h, em uma comunidade em que você pode falar, ouvir os colegas e trocar o que funciona.
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