
Setembro é marcado pelo Setembro Amarelo, um período importante de conscientização sobre saúde mental e valorização da vida.
É também uma oportunidade para falarmos sobre algo que, muitas vezes, fica em segundo plano na rotina de quem estuda para concursos públicos: o cuidado emocional.
Preparar-se para um concurso não é apenas sentar diante de uma videoaula e cumprir horas de estudo. Para muitas pessoas, esse processo representa um projeto de vida.
É a busca por estabilidade, melhores condições financeiras, realização profissional, autonomia e, muitas vezes, pela possibilidade de proporcionar uma vida melhor para si e para a família.
Por isso, não é difícil entender por que essa trajetória pode ser emocionalmente intensa.
O concurseiro precisa estudar, trabalhar, cuidar da casa, administrar relacionamentos, lidar com responsabilidades financeiras e, ao mesmo tempo, manter uma rotina de preparação que pode durar meses ou até anos. Existe a vida que precisa ser mantida enquanto se constrói a vida que se deseja ter.
E, nesse cenário, a saúde mental muitas vezes vai sendo deixada para depois.
“Quando eu passar, eu descanso.”
“Agora não posso parar.”
“Preciso aproveitar todo o tempo possível.”
“Tem gente estudando muito mais do que eu.”
“Não posso perder tempo com isso.”
Esses pensamentos podem parecer apenas parte da dedicação necessária para alcançar um objetivo. Mas existe uma diferença importante entre ter compromisso com a preparação e viver em constante estado de cobrança.
Cuidar da mente parece perda de tempo
Um dos grandes desafios do concurseiro é perceber que cuidar da saúde emocional não significa necessariamente diminuir o ritmo ou desistir da preparação.
Quando o descanso é constantemente negligenciado, quando a pessoa vive em estado de alerta, quando cada momento de lazer é acompanhado por culpa ou quando qualquer dificuldade é interpretada como falta de disciplina, o corpo e a mente começam a apresentar sinais.
A ansiedade pode aumentar, a concentração pode diminuir, o sono pode ser prejudicado, a irritabilidade pode aparecer. Podem surgir sentimentos de incapacidade, desesperança, tristeza e uma sensação constante de estar atrasado.
Também podem aparecer comportamentos de autossabotagem, como procrastinação, fuga dos estudos, dificuldade de iniciar uma tarefa, excesso de planejamento sem execução ou ciclos de estudo intensos seguidos por períodos de completo esgotamento.
E existe uma situação que merece atenção: a pessoa pode continuar estudando e, ainda assim, não estar emocionalmente bem.
Nem sempre o sofrimento aparece como uma interrupção completa da rotina. Às vezes, ele aparece enquanto a pessoa continua cumprindo suas obrigações, mas com um custo emocional cada vez maior.
Você pode negligenciar a saúde mental. Os sintomas, não.
É possível adiar o cuidado emocional. É possível dizer que vai procurar ajuda depois do edital, depois da prova, depois da aprovação. Mas não é possível simplesmente escolher não sentir os efeitos desse descuido.
A saúde emocional interfere na forma como estudamos, descansamos, lidamos com erros, interpretamos nossos resultados e enfrentamos situações de pressão. E isso se torna especialmente evidente no momento da prova.
A prova não acontece isoladamente. O candidato chega até aquele dia carregando toda a trajetória anterior: as noites mal dormidas, a pressão acumulada, as horas de estudo, as comparações, os medos, as reprovações anteriores e as expectativas que colocou naquele resultado.
Por isso, o cuidado emocional não deve começar na véspera da prova. Ele precisa fazer parte da preparação.
E depois da reprovação?
Outro momento em que essa questão se torna ainda mais evidente é após um resultado negativo.
Quando toda a autoestima da pessoa está vinculada à aprovação, a reprovação pode ser interpretada não como um resultado dentro de uma trajetória, mas como uma confirmação de que “eu não sou capaz”. E essa interpretação pode tornar muito difícil recomeçar.
Uma reprovação pode trazer frustração, tristeza, raiva, vergonha e dúvidas sobre o próprio caminho. Esses sentimentos não precisam ser negados.
Eles fazem parte da experiência. O problema aparece quando o candidato não consegue elaborar o resultado e passa a carregar a reprovação como uma definição sobre quem ele é.
Você não é a sua classificação. Você não é a sua nota. E uma reprovação não é uma sentença sobre a sua capacidade.
Ela pode trazer informações importantes sobre o percurso, mas não precisa se transformar em um julgamento sobre o seu valor pessoal.
Pequenos cuidados também contam
Cuidar da saúde mental durante a preparação não significa criar uma rotina perfeita ou acrescentar mais uma lista de obrigações ao seu dia. Comece pelo possível:
- Respeite, dentro da sua realidade, momentos de descanso.
- Tente preservar o sono.
- Alimente-se de forma adequada.
- Tenha algum espaço para atividades que não estejam relacionadas ao concurso.
- Observe como você está falando consigo mesmo.
Perceba se a cobrança está ajudando você a seguir em frente ou apenas aumentando a culpa.
Evite transformar cada dia ruim em uma prova de que toda a sua preparação está dando errado.
E, principalmente, aprenda a reconhecer seus sinais.
Você tem se sentido constantemente exausto? A ansiedade está dificultando sua rotina? A tristeza tem sido frequente?
Você perdeu o prazer em atividades que antes faziam sentido? Está se isolando? Está tendo dificuldade para estudar mesmo querendo estudar? Está sentindo que não consegue lidar sozinho com tudo o que está acontecendo?
Esses sinais merecem atenção.
Pedir ajuda também é cuidar de si
Existe uma ideia equivocada de que procurar ajuda psicológica significa que a pessoa não está dando conta. Pedir ajuda é reconhecer que existem momentos em que o sofrimento ultrapassa aquilo que conseguimos manejar sozinhos.
Se você percebe que sua gestão emocional está difícil, que os sintomas estão interferindo na sua rotina ou que o sofrimento está maior do que você consegue administrar, procure apoio profissional.
E, diante de pensamentos relacionados ao desejo de desaparecer ou de não querer mais viver, é fundamental buscar ajuda imediatamente e não permanecer sozinho com esse sofrimento. No Brasil, o CVV atende pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.
A saúde mental não pode ser tratada como algo secundário na preparação. Ela está presente na forma como você estuda, descansa, enfrenta uma dificuldade, lida com uma reprovação e continua depois de um dia ruim.
E, quando os sinais de sofrimento aparecem, pedir ajuda não é fraqueza, falta de disciplina ou falta de comprometimento com o concurso. É cuidado.
Neste Setembro Amarelo, fica também esse lembrete para quem está vivendo a preparação: você precisa cuidar da sua saúde emocional enquanto busca a vida que deseja construir.
Conte com o Qconcursos também nessa caminhada. A preparação para concursos envolve muito mais do que conteúdo. É uma trajetória que exige dedicação, mas também precisa considerar os limites, as emoções e a vida de quem está estudando.
Você não precisa esperar passar para começar a se cuidar. O seu cuidado também faz parte desse caminho.
Psicóloga Kelly Alves
CRP 01/23344
@psicologakellyalves







