Xanxerê abre precedente perigoso contra a estabilidade

A proposta do prefeito Oscar Martarello de contratar novos servidores municipais sob o regime celetista, sem estabilidade, é perigosa. Leia editorial.

Autor:Editorial
Publicado em:23/06/2026 às 19:51
Atualizado em:23/06/2026 às 20:41

Opinião Qconcursos


O prefeito de Xanxerê, em Santa Catarina, Oscar Martarello, apresentou à Câmara de Vereadores um projeto de lei que altera o regime de contratação dos novos servidores públicos municipais.


Pela proposta, quem entrar a partir da aprovação da medida não teria mais a estabilidade garantida pelo regime estatutário. Seria contratado pela CLT e poderia ser demitido como qualquer trabalhador do setor privado.


O prefeito ampara a proposta em uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu aos municípios, estados e União a opção de escolher entre os dois regimes.


E se apressa em apresentá-la como inovação necessária frente à tecnologia, às mudanças nas demandas das secretarias e à necessidade de "flexibilidade para o futuro".


No entanto, sem estabilidade, o servidor que aplica corretamente a lei tributária pode ser demitido pelo prefeito, quando em situação hipotética, seu aliado for autuado.


O fiscal sanitário, que autua um restaurante sem condições, pode perder o emprego se o dono for amigo da gestão.


O professor que reprova o filho do vereador pode ficar vulnerável a pressões que, hoje, a estabilidade neutraliza.


A estabilidade é, em essência, um mecanismo de proteção do interesse público contra o interesse político imediato. Retirá-la dos novos servidores não cria eficiência, cria dependência.






A tecnologia como argumento frágil


O prefeito justifica a proposta mencionando que, "daqui a 10, 15 ou 20 anos", as demandas das secretarias podem mudar em função da tecnologia e da inovação.


O argumento soa contemporâneo, mas é analiticamente frágil.


Todos os setores da economia enfrentam transformações tecnológicas. Bancos, indústrias, empresas de logística requalificaram seus trabalhadores sem precisar eliminá-los.


O caminho do setor privado que inova de verdade não é a demissão fácil, é o investimento em formação.


Se Xanxerê teme que suas secretarias fiquem obsoletas tecnologicamente, a solução é um plano de capacitação permanente, não a criação de uma força de trabalho descartável. 


Servidores que sabem que podem ser demitidos a qualquer momento não têm incentivo para investir na própria formação técnica nem para acumular o conhecimento institucional que torna um Estado municipal funcional.



A sinalização que preocupa

O que torna o projeto de Xanxerê especialmente relevante e preocupante é o seu caráter de precedente.


O prefeito Martarello não está atuando no vácuo: ele cita expressamente que o STF abriu essa possibilidade e que o município está "se antecipando".


É exatamente essa antecipação que merece atenção nacional.


Se um município do interior de Santa Catarina puder ser o laboratório dessa mudança e colher aplausos nas redes sociais antes que seus efeitos se manifestem, o que levará anos, a pressão sobre outros prefeitos, governadores e, eventualmente, o governo federal, para adotar o mesmo caminho será crescente.


O discurso já está formatado para viralizar: "modernização", "flexibilidade", "fim de privilégios".


São palavras que soam bem e que escondem a pergunta que realmente importa: a quem interessa um servidor público que pode ser mandado embora?



O concurseiro merece uma resposta honesta

Há centenas de milhares de brasileiros que, neste momento, estudam para concursos públicos.


Abrem mão de salários imediatos, sacrificam fins de semana, investem em cursos e materiais.


Muitos escolhem a carreira pública não apenas pela remuneração, mas pela possibilidade de construir algo duradouro, de servir com continuidade, de fazer carreira com mérito.


A esses candidatos, projetos como o de Xanxerê, se aprovados e replicados, não apenas mudam as condições de trabalho, mudam o próprio sentido da carreira pública. Transformam o servidor em um funcionário precário com selo de concurso.



Nossa posição

O Qconcursos defende o aprimoramento do serviço público com mais investimento em seleção rigorosa, avaliação de desempenho estruturada e formação continuada, não pelo desmonte das garantias que tornam possível a independência funcional do servidor.


A estabilidade não é um obstáculo à eficiência. Ela é a condição para que a eficiência seja exercida sem medo.


Equipe Qconcursos!

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