
Você estuda, revisa, resolve questões e faz a sua parte todos os dias. Mesmo assim, em algum momento, bate a sensação de que está correndo, correndo e não sai do lugar.
Como psicóloga que acompanha concurseiros desde 2020, posso dizer: muitas vezes o problema não está no método de estudo, mas na saúde emocional que ficou esquecida no meio da preparação.
Há algo que vale para o ano inteiro: quando a gente negligencia sintomas e queixas, eles tomam caminhos cada vez mais difíceis de reparar. Por isso, quero propor alguns minutos de pausa no meio dos editais, das revisões e da teoria.
Você é mais do que um concurseiro
Antes de ser concurseiro, você é um adulto com várias responsabilidades. E, por algum propósito, anseio ou urgência, escolheu mais uma: estudar para concurso. Costumo dizer que a vida é feita de vários potinhos, e cada um precisa ser nutrido ao longo dos dias.
Como o estudo exige tanta dedicação e tantas renúncias, ele passa a ocupar o centro de tudo. Os outros potinhos continuam precisando de você, mas ficam esquecidos. Reconhecer isso é o primeiro passo para ter um olhar mais gentil sobre a sua rotina.
Cuidado com o peso extra que você coloca na aprovação
Você olha para o lado, vê a concorrência avançando e sente que não pode parar.
Essa comparação alimenta uma urgência ainda maior e um sentimento de insuficiência. Será que você não está se cobrando além da conta?
Estudar já é uma tarefa difícil e tem um custo alto, que você sente na pele. Quando a gente coloca mais expectativa e mais pressão, passa a dar outros significados ao estudo.
E quando algo ganha significado demais, a gente passa a acreditar que não existe espaço para errar. Sem perceber, você acrescenta um peso extra a uma responsabilidade que já é grande.
Emoções engavetadas não desaparecem
Todo mundo que estuda para concurso enfrenta obstáculos, inclusive o seu concorrente. A diferença está no que cada pessoa faz com aquilo que sente.
Quando você coloca as emoções na gaveta e segue empurrando com a barriga, elas não deixam de existir. Elas ganham proporção. Aquilo que hoje aparece e some pode voltar muito maior lá na frente.
E se um pensamento volta sempre com força, não trate como bobeira: é o seu corpo tentando avisar que algo precisa da sua atenção.
Saúde mental pede manutenção diária, e cabe na sua rotina
Sei que você pode estar pensando: “Com que tempo eu vou cuidar disso?”.
A boa notícia é que não são necessárias grandes mudanças. Pequenas escolhas geram grandes movimentos. Algumas práticas possíveis:
- Faça um exercício de respiração, ali mesmo, sentado na sua mesa de estudos.
- Cuide do seu sono, da alimentação e da atividade física. Um hábito saudável ajuda a destravar outros.
- Reserve dois ou três minutos por dia para silenciar as distrações, como redes sociais e notificações, e observar seus pensamentos.
- Identifique os gatilhos que deixam você mais ansioso, angustiado ou preocupado com a preparação.
É no silêncio que surgem os pensamentos que você tenta reprimir. Deixar que eles venham permite confrontar crenças limitantes que impedem você de exercer a sua melhor versão.
Lembre também que temos um superpoder, a neuroplasticidade: não é porque você aprendeu a reagir de um jeito que precisa continuar assim. Cada vez que você pratica a autoobservação e a regulação emocional, constrói um caminho neural novo e mais leve.
O dia da prova começa muito antes
Quando a prova se aproxima, a pressão aumenta e fica mais difícil gerenciar as emoções. É nesse momento que a falta de manutenção emocional costuma aparecer.
Por isso, não deixe para se preocupar com a saúde mental só na reta final. O cuidado precisa acontecer antes, no pré-edital e no pós-edital.
Repare também em como você lida com os erros. Errar faz parte da preparação: é errando que você descobre onde ajustar. O erro é uma oportunidade de acerto, não uma prova de fracasso ou de incapacidade.
Como colocar isso em prática
Comece pelo que é possível hoje, dentro da sua realidade. Saia um pouco do barulho, olhe para si e resgate o propósito que fez você começar, algo que a gente costuma perder no caminho.
Cuidar das outras áreas da vida também diminui a sensação de estar estacionado enquanto todo mundo segue em frente.
A preparação para concursos pede constância, e constância só é sustentável quando você está minimamente bem. A travessia tem um custo, mas você merece chegar inteiro para celebrar a sua nomeação.
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