A investigação da Polícia Federal sobre fraudes em concursos públicos ganhou novos desdobramentos após a divulgação de detalhes inéditos. Uma reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no último domingo, dia 22, revelou áudios, documentos e informações sigilosas da apuração.
A emissora teve acesso a áudios, documentos e informações sigilosas, que apontam a atuação de uma organização criminosa em seleções de grande porte, incluindo o Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024.
De acordo com a reportagem e informações também repercutidas pelo portal G1, o grupo atuava com a venda de gabaritos, acesso antecipado às provas e uso de dispositivos eletrônicos durante a aplicação dos exames.
As investigações indicam que candidatos chegaram a ser aprovados de forma irregular para cargos de alta remuneração, como o de auditor fiscal do trabalho, com iniciais superiores a R$22 mil.
Esquema envolvia acesso antecipado a provas e corrupção
Segundo a reportagem exibida pelo Fantástico, a investigação teve início após uma denúncia anônima e levou à identificação de um grupo estruturado, com divisão de funções e atuação em diferentes estados.
Áudios obtidos pela Polícia Federal mostram como o esquema operava para garantir a aprovação de candidatos. Em um dos trechos, um dos envolvidos detalha a necessidade de corromper agentes ligados à aplicação das provas.
“O custo vai ser dobrado, porque tem que corromper o vigilante, tem que corromper a chefe do vigilante... desativar as câmeras”, afirma, de acordo com a reportagem.
Outro ponto revelado foi o acesso antecipado ao conteúdo das avaliações. Conforme a apuração, candidatos receberam previamente o tema da redação e respostas das provas objetivas, antes mesmo da abertura dos portões.
Violação de provas e uso de "bonecos" estão entre os métodos
A reportagem do Fantástico também aponta que o grupo utilizava diferentes estratégias para fraudar concursos públicos.
Entre elas estão:
- violação de envelopes de prova;
- uso de pontos eletrônicos para envio de respostas;
- contratação de terceiros para fazer provas no lugar dos candidatos (“bonecos”); e
- registro fotográfico de cadernos de questões durante a aplicação.
Em um dos áudios divulgados, um investigado afirma que o lacre das provas poderia ser rompido e recolocado sem dificuldade.
“O lacre é fácil demais. Tanto roubar e botar de novo”, disse, segundo a reportagem da TV Globo.
A fala é de Waldir Luiz de Araújo Gomes, que também era conhecido como "Mister M".
Ele trabalhava na Fundação Cesgranrio, banca organizadora responsável pela 1ª edição do CNU e, depois, ingressou no Tribunal Regional da Paraíba (TRE PB).
De acordo com a PF, ele teve acesso antecipado às provas e explicava como violar os envelopes sem deixar vestígios.

Quadrilha usava ponto eletrônico e fotografias para fraudar concursos públicos
(Foto: Reprodução TV Globo)
De acordo com a investigação, o esquema não se limitava ao CNU. A organização criminosa também teria atuado em concursos públicos para tribunais, bancos federais e universidades.
Ainda conforme a reportagem, os valores cobrados variavam de acordo com o cargo, podendo chegar a R$500 mil em seleções de maior prestígio e remuneração.
A estrutura do grupo incluía responsáveis pela captação de clientes, execução das fraudes e articulação com pessoas ligadas à logística das provas.
Em nota enviada nesta segunda, 23, ao Qconcursos Folha Dirigida, a Fundação Cesgranrio esclareceu que Waldyr Luiz de Araújo Gomes, citado na matéria, não era funcionário da instituição.
"Em nosso banco de colaboradores, contamos com mais de 2,4 milhões de cadastrados, sendo 39 mil coordenadores de local. Os malotes utilizados são protegidos por lacres metálicos de difícil manuseio, numerados e pré-registrados individualmente, garantindo a inviolabilidade do material. Eles são abertos em um procedimento de segurança, na sala da coordenação e na presença de três candidatos escolhidos aleatoriamente. Portanto, ao romper um lacre em momento indevido, não seria possível que os candidatos verificassem a integridade dos malotes. Também afirmamos que os outros concursos citados na matéria e com possibilidade de fraudes, não foram aplicados pela Cesgranrio. A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, lisura e segurança em todos os processos seletivos que organiza", disse a banca em nota.
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Investigação cita delegado e outros envolvidos
Com o avanço das apurações, a Polícia Federal passou a identificar possíveis conexões do esquema com agentes públicos.
Segundo a reportagem do Fantástico, o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, foi citado em depoimentos no âmbito da investigação.
De acordo com os relatos, ele teria solicitado a atuação do grupo para beneficiar pessoas próximas. A PF apura a veracidade das informações.
A reportagem também menciona que parentes e conhecidos de investigados teriam sido beneficiados em concursos, incluindo o próprio CNU.
Ainda de acordo com a apuração da TV Globo, o avanço das investigações ocorreu após acordos de delação premiada firmados por integrantes do grupo.
A partir dessas colaborações, a Polícia Federal realizou novas ações e cumpriu mandados de prisão e busca e apreensão em estados como Alagoas, Paraíba e Pernambuco.
Entre os investigados estão pessoas apontadas como responsáveis por resolver provas para candidatos e intermediar o esquema.
Segundo a PF, os envolvidos podem responder por crimes como fraude em concursos públicos, organização criminosa e concussão.
PF não descarta novos desdobramentos
A Polícia Federal informou que as investigações continuam e que novas fases da operação não estão descartadas.
De acordo com os investigadores, o objetivo é identificar todos os beneficiados e reforçar os mecanismos de segurança nos concursos públicos.
“A preocupação maior é a rigidez do sistema que permite o acesso ao serviço público”, afirmou um dos responsáveis pela investigação, segundo a reportagem da TV Globo.
O caso segue sob investigação e pode ter novos desdobramentos, inclusive com impacto em concursos públicos já realizados.























